A Prefeitura de São João do Tigre homologou um pregão eletrônico no valor de R$ 1.442.894,50 para aquisição de material de expediente. Entre os itens previstos está a compra de 12.500 cadernos, quantidade que chama atenção quando comparada ao número de estudantes da rede municipal que efetivamente utilizam esse tipo de material.
Segundo estimativas da própria rede de ensino, o município possui cerca de 780 alunos, dos quais aproximadamente 80 pertencem à educação infantil (creche), etapa em que normalmente não utiliza os modelos de cadernos previstos no edital. Dessa forma, menos de 700 estudantes utilizariam esse tipo de material escolar.
Somente os itens relacionados aos cadernos somam:
1.500 cadernos espiral capa dura de 10 matérias;
1.500 cadernos espiral capa dura de 12 matérias;
1.500 cadernos espiral capa dura de 15 matérias;
2.000 cadernos espiral capa dura de 20 matérias;
1.500 cadernos brochura capa dura 1/4;
2.000 cadernos brochura capa dura de 96 folhas;
1.000 cadernos de desenho com espiral;
1.500 cadernos de desenho capa dura.
Ao todo, o edital prevê a aquisição de 12.500 cadernos.
Além dessa contratação, a Prefeitura também homologou outra licitação destinada à aquisição de material gráfico, no valor de R$ 577.125,00. Somadas, as duas licitações ultrapassam R$ 2 milhões.
Os valores também chamam atenção quando comparados a municípios vizinhos do Cariri paraibano. Em Camalaú, por exemplo, a Prefeitura ainda utiliza a ata de registro de preços homologada em 2025 para aquisição de material de expediente, com valor aproximado de R$ 235,9 mil, sem necessidade de uma nova licitação em 2026. Já São Sebastião do Umbuzeiro registra despesas significativamente inferiores com material de expediente e gráfico neste exercício.
Outro aspecto que reforça o debate é que o próprio prefeito de São João do Tigre decretou situação de emergência em razão da estiagem, reconhecendo oficialmente os impactos da seca sobre o município, principalmente na zona rural.
Enquanto os agricultores convivem com a escassez de água, aguardam limpeza de barreiros, recuperação de estradas vicinais, corte de terras e outras ações de apoio à produção rural, o elevado volume de recursos destinado à aquisição de material de expediente e gráfico desperta questionamentos sobre as prioridades da administração municipal.
Para efeito de comparação, os mais de R$ 2 milhões previstos nas duas licitações poderiam, em valores médios de mercado, representar a aquisição de aproximadamente 25 veículos populares, cinco a seis caminhões-pipa ou quatro a seis tratores agrícolas completos, equipamentos que poderiam reforçar o atendimento às comunidades rurais, ampliar o abastecimento de água, auxiliar na limpeza de barreiros, no preparo de terras para plantio e em outras ações voltadas aos agricultores.
Nos últimos meses, a gestão municipal também tem divulgado a entrega de novos veículos para a frota pública. No entanto, moradores da zona rural defendem que investimentos em máquinas, equipamentos e ações de convivência com a seca poderiam trazer impactos diretos para centenas de famílias que dependem da agricultura.
A comparação ganha ainda mais relevância por se tratar de um município de pequeno porte, onde despesas com material de expediente e gráfico não costumam variar em razão da extensão territorial, diferentemente de investimentos em infraestrutura, manutenção de estradas ou transporte.
A reportagem mantém espaço aberto para que a Prefeitura de São João do Tigre apresente esclarecimentos sobre os critérios técnicos utilizados para definir as quantidades e os valores das licitações, bem como sobre a compatibilidade desses investimentos com as necessidades enfrentadas pelos agricultores e pelas comunidades da zona rural.
VEJA O EDITAL DO PREGÃO ELETRÔNICO DA LICITAÇÃO
VEJA A COMPARAÇÃO DAS CIDADES VIZINHAS:







